A natureza pelo olhar indígena

                                                          "Maria Eduarda Fialho"   

  O conceito de natureza bem como a implicação dela na sociedade sofreu alterações ao longo dos séculos. Partindo inicialmente de uma visão filosófica1, que caracterizava a natureza como virtuosa e mística para uma visão contemporânea utilitarista e de apropriação, guiada principalmente pelo capitalismo. Por essa visão mecanicista, a natureza perde os conceitos que os antigos filósofos encontravam nela, resultando em uma máquina a ser controlada (LENOBLE, 2002).                         

      Toda convicção de natureza implica em uma consonância complexa de aspectos morais, científicos, religiosos, afetivos e artísticos que dominam e influenciam uma época (LENOBLE, 2002). Indubitavelmente, na contemporaneidade a relação humana com a natureza foi convertida a uma relação de domínio e de proveito (Dictoro, 2019). Essa concepção que distancia o homem da natureza, proporcionou ao longo do processo histórico imperante, uma visão sintonizada às ideias de Francis Bacon2 e René Descartes3 nas quais, o homem seria o centro do mundo, uma visão antropocêntrica que se funda em uma natureza inesgotável.

      Decerto, a harmonia entre os seres humanos e a natureza foi rompida, na tentativa de resgatá-la, traçamos um diálogo com indígenas provenientes de diferentes localizações do território brasileiro. Sendo, Kuiarape Mehinaco e Agnaldo Tapirapé povos originais do Mato Grosso e a indígena Ereu Apalai do Pará. Apesar de habitarem em diferentes locais, esses indígenas retrataram semelhantes mudanças que perceberam no meio em que vivem ao longo dos tempos, as quais foram marcadas por ações prejudiciais de alguma forma. Dentre as mudanças relatadas, vale salientar a queda nos níveis dos rios, prejudicando a pesca e em conseguinte a alimentação nas aldeias; desmatamento e queimadas nos terrenos vizinhos, acometidas por fazendeiros ou na mata nos arredores para obter benefício econômico, provocando diminuição da caça e prejudicando a roça (vocabulário utilizado para designar o plantio). Também foram relatadas as mudanças no clima por todos os indígenas. Ereu Apalai, por exemplo citou que algumas épocas do ano conhecidas como “época do peixe”, “época da chuva” já não ocorrem no mesmo período que anteriormente, provocando restrições nas colheitas, perdas e impossibilidade de cultivar a terra. Dessa forma, as percepções dos indígenas nos atentam para grandes calamidades, que para eles são mais facilmente notadas, visto que, essas são as principais formas de obterem alimento para a comunidade.   
 
Como outra forma de subsistência, as tribos entrevistadas utilizam a matéria-prima obtida na natureza para produzir artesanatos e objetos que são vendidos e assim, essas comunidades obtêm uma renda complementar. Ademais, também são obtidos na natureza, materiais para a realização de rituais indígenas, confecção de cocares e adereços para serem utilizados nas festas (vocabulário utilizado para designar momentos de celebração e comemoração) e também para servir de alimento para toda comunidade nestas ocasiões. Salienta Agnaldo Tapirapé, “sem a natureza não fazemos nossa festa”.

      Os indígenas Ereu Apalai, Agnaldo Tapirapé e Kuiarape Mehinaco, possuem em comum uma particularidade marcante: a empatia pela natureza. Para eles, os indígenas e a natureza são apenas um ser. A maneira como estes povos sobrevivem, incluem a perseverança, o cuidado e o amor pela terra. Tais conclusões foram possíveis, a partir do relato de Agnaldo Tapirapé, quando ele discorre que sua tribo utiliza à terra para o plantio e após a colheita deixam a natureza descansar e se renovar, mudando para outro espaço o cultivo. Essa prática se destoa muito de costumes de uma parcela dos não-indígenas, quando buscam apenas explorar à exaustão os meios naturais e não se leva em consideração a necessidade que à terra precisa de descansar e de se reestruturar.

      Este texto foi proposto para que por meio de ensinamentos simples e cotidianos dos povos originários, possamos aprender e assim reestabelecer a harmonia que foi perdida quando ouve o distanciamento do ser humano e meio natural.


      Perante o exposto e acontecimentos ambientais recentes vividos, por exemplo: rompimento da barragem de Mariana e Brumadinho, derramamento de óleo no litoral brasileiro, queimadas na Amazônia e no Pantanal e, é claro, a Pandemia do coronavírus, nos questionamos:  não seria esse o momento adequado para desacelerar e observar a relação dos indígenas com a natureza, objetivando aprender com os mesmos? Desacelerar os meios de produção, os carros, as máquinas, as serras elétricas, a degradação, o desmatamento e queimadas, para assim ouvir a dor que a natureza tanto grita? Repensar os conceitos que nos constituem enquanto sociedade capitalista, questionar e agir na direção para que todos tenhamos boas condições de existência, respeitando conceitos éticos e morais?

      É importante salientar ainda, que mesmo os indígenas não conhecendo o conceito científico biocentrismo, eles o possuem por atuarem em princípios propostos por essa filosofia, já que para eles todas as formas de vida são igualmente importantes e os seres humanos não são o centro da existência de si e muito menos de outros. Sendo assim, todos os seres vivos possuem igual importância e isso implica diretamente na resistência às formas de agressão ao meio, seja o desmatamento, as queimadas e ao uso não harmônico da natureza.

      Por fim, para finalizar essa reflexão são trazidas mensagens propostas pelos próprios indígenas para toda a sociedade. Ereu Apalai reflete sobre toda essa situação nos seguintes termos - “é muito triste isso, a gente fica imaginando o que vai ser daqui a alguns anos, se ainda vamos ter os animais, as florestas. Eu acho que cada um deve ter consciência, cuidar e amar os animais e florestas, porque a natureza é linda”. E Agnaldo Tapirapé ainda propõe - “respeitar a natureza que a gente vive e depende. Se a gente não respeita essa natureza, vai piorar para todos e nós temos que cuidar dela”.

1- A visão filosófica pré-socrática possuía preocupação com a natureza e com seus processos. Uma vez que, os filósofos pré-socráticos eram conhecidos como filósofos da natureza.
2- Francis Bacon foi um político, filósofo, cientista, ensaísta inglês, barão de Verulam e visconde de Saint Alban. É considerado o fundador da ciência moderna. 1561-1626.
3- René Descartes foi um filósofo, físico e matemático francês. 1596-1650
 
Autora Maria Eduarda Fialho Junqueira Rezende, graduanda em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São João Del Rei. Por meio da unidade curricular Análises Críticas da Prática Pedagógica I, orientada pelo Professor Gabriel Viana, busco me qualificar no estágio de educação em Ciências em espaços não formais de ensino. Para isso foi proposto o presente trabalho com a Colaboração de Evandro Baccara Kelmer, que possibilitou sua realização, mediando o contato com os indígenas e no suporte geral para a conclusão. Para alcançarmos nosso objetivo, foi traçado um diálogo com três indígenas citados no texto, a qual agradecemos imensamente a participação e por compartilhar conosco um pouco de suas histórias. Agradeço também a oportunidade concedida a mim pela Galeria Moitará Arte Indígena.

REFERÊNCIAS:
LENOBLE, R. História da ideia de natureza. Rio de Janeiro: Edições 70 Melhoramentos, 2002. 367p.
DICTORO, V. A relação ser humano e natureza a partir da visão de alguns pensadores históricos. São Paulo: Revista Brasileira de Educação Ambiental, 2019. V. 14, No. 4: 159-169p. 
MANZINI, E. J. Considerações sobre a entrevista para a pesquisa social em educação especial: um estudo sobre análise de dados. In: JESUS, D. M.; BAPTISTA, C. R.; VICTOR, S. L. Pesquisa e educação especial: mapeando produções. Vitória: UFES, 2006, p. 361-386.



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